“Lencinho Vermelho de Bolinhas Brancas” ou “Uma grande História de amor”


Em 1942, a jovem Lina (mamãe) então com 15 anos, conheceu o jovem Antonio (papai), com 17 anos.
Namoraram um mês e meio, namorico de crianças, não deu certo. Minha avó era dura e disse que eles brigavam muito por isso, estavam proibidos de namorar.

Eles moravam próximos, como diz a minha mãe, na mesma mansão. Era um cortiço, ou seja, um grande quintal com vários cômodos, um banheiro nos fundos ao lado de dois ou três tanques de lavar roupa.
Alguns tinham dois cômodos, então, um era quarto e outro cozinha. Outros tinham apenas um cômodo, que servia de tudo.
Interessante que apenas um banheiro e não existiam tantas doenças DST como atualmente. Acredito que deveriam existir outras.

Como moravam próximos, continuaram se vendo constantemente, como amigos.

Em 1943, papai encontrou a mamãe, como normalmente acontecia e, durante a conversa ela deixou cair um lencinho vermelho com bolinhas brancas. Papai rapidamente o pegou e disse que não o devolveria : “- Roubei!”

Minha mãe usava o lenço para limpar o baton, uma vez que meu avô não a deixava usar, então, antes de entrar em casa ela tinha que tirá-lo, e para isso ela usava o lencinho.

Mamãe diz que não ligou e ainda debochou dele: “- pode ficar, é um simples lencinho”.

Entre encontros e desencontros, nunca mais se falou no lencinho.

Em 1948 encontraram-se novamente, e desta vez começaram a namorar de para valer.

Casaram-se em 1950, no dia 20 de maio, aniversário da mamãe.

Logo que se casaram, papai mostrou o lencinho e disse que o havia guardado, e que agora ele gostaria que ela o guardasse e, se ele morresse primeiro que ela, era para colocar o lencinho na urna funerária.

Em setembro de 2005, papai apresentou câncer de rim. Na primeira semana de janeiro de 2006 retirou o rim direito, o ureter e um pedaço da bexiga.

Logo após, iniciou um tratamento de quimioterapia, que provocou uma trombose.

Ainda em março de 2006, quando completou 82 anos, conseguia dirigir até a feira e ao supermercado.

Seu estado foi piorando. Em julho já tinha dificuldade em andar. Em setembro necessitava da bengala e do andador. Em outubro necessitou da cadeira de rodas.

Entre idas e vindas ao hospital, passamos (eu e minha esposa Glauceli) a dormir com eles.
Cada vez que eu ia dar banho nele, via seu corpo esvaiando e a barriga inchando cada vez mais. A metástase se espalhou pelos gânglios e pulmões.
A partir no início de novembro ele já tinha dificuldades em falar (articular as palavras). Acredito que ele achava que estava falando corretamente, mas já tínhamos dificuldades em entendê-lo.

Lembro do homem altivo, forte, decidido, trabalhador que agora, resignado, se colocava nas minhas mãos. Chorei muito.

No dia 10 de novembro tivemos que interná-lo novamente. Mamãe ficava durante o dia todo com ele. Eu ficava à noite. A Glauceli ia e voltava várias vezes.

No dia 12 de novembro cortava nossos corações ver seu sofrimento.
Conversei com os médicos que disseram não ter mais nada a fazer. Perguntei se levá-lo à UTI poderia resolver o problema. Responderam que somente aumentaríamos seu sofrimento e no máximo ganharíamos algumas horas. Pedi então, para sedá-lo.
Por volta das 23h30m falei para minha mãe ir para casa descansar. Mamãe, muito firme e com os olhos cheios de lágrimas disse-me:
“- Vou preparar sua roupa de viagem, quero que ele vista o casaquinho marrom que ele tanto gostava”
A Glauceli levou mamãe. Fiquei ao lado de meu pai.

As 2h40m, madrugada do dia 13, uma segunda-feira. Papai parou de respirar.

Ao chegar em casa para falar com mamãe e pegar os documentos para preparar o velório, mamãe me disse:
“- Leve o lencinho que eu quero que ele vá no caixão do papai”

Falei que era melhor nós o colocarmos, pois poderia se perder.

Mamãe guardou o lencinho por 56 anos, 5 meses e 22 dias, em um saquinho plástico. Olhou para mim e disse: “- você tem razão” e enfiou o lencinho no bolso.

Após todos os preparos, fomos ao velório. Levantei o véu que cobria papai, peguei o lencinho com muito cuidado, pois estava muito frágil, quase apodrecido, e o encaixei entre seus dedos.

Mamãe olhou, chorou e disse : “- esse é um símbolo do nosso amor”

Não me contive e chorei novamente.

Durante o velório, contei para todos que tive oportunidade, sobre o “Lencinho Vermelho de Bolinhas Brancas”, guardado por mais de 64 anos.

Amor! amizade! carinho!

Saudades paizão!!! Um beijão onde quer que esteja!!!