DIA DOS MORTOS

Hoje estive no cemitério com minha mãe. No próximo dia 13 fará três anos da morte do papai.

É um cemitério campo, embora eu goste de cemitérios antigos com aqueles mausoléus enormes, pois ali se encontra uma parte da nossa história, mas o campo dá uma sensação menos tétrica e mais paz.

São flores por toda parte, coloridas, grandes, pequenas. Um vazinho solitário ali, vários vasos acolá. Brinquedos, balas e pirulitos também são encontrados.

Pessoas chorando, talvez sentindo falta do ente querido, ou até mesmo remorso, outras rindo ou com o som do automóvel alto. Algumas com pressa e impacientes. Outras com cadeira e guarda-sol, ali, sentada em frente a tumba. Algumas formam um círculo, de mãos dadas, rezando ou orando.

Em uma tenda improvisada, algumas centenas de pessoas acompanhavam um culto, outras acendiam velas, outras ainda, comiam calmamente um pastel nas barraquinhas montadas dentro do cemitério.

Se um “marciano” chegasse de improviso, certamente teria dificuldades de identificar o tipo de evento que estava ocorrendo: será a arena de a um campeonato esportivo? ou quem sabe algum show de artista famoso(a). Ou talvez um comício político? ou um encontro gospel?

Na volta, mamãe comentou que antigamente iam mais pessoas ao cemitério, inclusive iam uma semana antes para limpar os túmulos, lavar os mármores, polir as placas de bronze e até pintá-los, e ai lembrei-me de uma passagem:

Certa vez fomos, eu, meus irmãos e a filha de uma vizinha, todos na faixa dos 10 aos 13 anos, com meus pais, para limpar o túmulo, lá no cemitério do Araçá (São Paulo/SP). Enquanto eles limpavam, nós, as crianças, ficávamos correndo para-lá-e-para-cá, lendo as inscrições e calculando a idade dos mortos. Ficávamos interrogativos quando o morto era criança. Achamos um túmulo abandonado e quebrado, onde viam-se ossos. Nossa amiga, a mais velha do grupo das crianças, sem medo pegou um osso, que acho que devia ser uma tíbia, perónio ou fêmur e, curiosa para saber  o que tinha no meio do osso, quebrou-o ao meio. Falei-lhe que o morto ia ficar atrás dela. Minha mãe disse que por muito tempo ela reclamou que até sonhava que estava sendo perseguida pelo morto. Coisas de crianças e muito descuido do estado para com o cemitério.

Mas voltando ao assunto, quando mamãe disse que antigamente iam mais pessoas ao cemitério, fico imaginando como será no futuro. As reverencias devem ser aos mortos, ali representadas por placas sinalizadoras no chão, ou ao espírito deles? Na vida agitada e diversificada que a humanidade leva atualmente, cabe e caberá espaço para essas visitas?Acredito que além da fé, distorcida e mal informada, de antigamente, também havia a falta de atividades, o que fazia da ida aos cemitérios um acontecimento importante.

A sociedade é viva e mutante e certamente novos modelos surgirão, inclusive, o que fará uma pessoa no cemitério, que teve seus entes queridos falecidos e cremados?

Respeito todos e a todos credos, inclusive continuarei indo ao cemitério, então, aqueles que não acreditam, com todo respeito, respeite os que cultuam seus mortos.

Abraços